sábado, 28 de janeiro de 2012

No cais...


"Os que tomando navios descem os mares , esses vêem as obras do Senhor e as suas maravilhas". (Salmos 107:23)





Eu li num livro e me marcou muito, ja adulto.

Um jovem enfiou na cabeça que atravessaria o Atlantico num simples barco.
No dia marcado para o embarque, no cais, aglomerou-se numerosa multidão para acompanhar o feito inusitado.
Na medida em que o barco se afastava, só se ouviam os gritos de desencorajamento:

Volte rapaz, ainda é tempo!!!...Você não vai conseguir, os tubarões te comerão!!! Você  vai morrer, filho, de frio ou de calor!!! Uma onda vai te matar!!!

Quando do nada...

Surge uma voz solitária, era um senhor acenando com um lenço:
Parabéns pela coragem rapaz!!! Vá em frente!!! É seu sonho!!! Mostre ao mundo que vc é maior que o mar!!!

Não faltam pessoas para nos desacreditarem nessa vida. Pior que não acreditar em nós é tentar nos fazer desacreditar da gente.

Fico pensando no que seria do mundo não fossem os loucos, os poetas, os que devaneiam apaixonados, os desbravadores de sonhos impossíveis, os que fazem da vida seu playground permanente.

O mau das pessoas práticas demais  é se acostumarem com a rotina, com as verdades absolutas que lhe estabilizam a mediocridade.

Viver sem emoção é uma morte ainda não percebida...

Existe um céu estrelado para se admirar, existe um rio de sangue percorrendo veias, que anseia desaguar no mar profundo de um coração imaginativo.

O medo de explorar o potencial da existência, tem levado muitos a uma vida enfadonha, crítica...de testa franzida...

Não dá para manter o barco da vida para sempre aportado ao cais...

O mar é o percurso a ser vivenciado...com calmarias e tempestades.

Os que empreenderem pela fascinante aventura do bem viver, correrão muitos riscos, mas certamente poderão dizer ao fim da jornada ao aportar o barco no cais da eternidade:

Obrigado Deus, por ter bem aproveitado a vida que me deste.

Marcello di Paola

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Cheiro das Letras...

"Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos..." 
(S. Paulo, Apóstolo aos Coríntios, 2ª carta)


Eu vou muito em sebo ( loja de livros usados, geralmente esgotados).

Há inúmeros em São Paulo...é um dos ambientes que mais me dão prazer...cenário perfeito para relaxar...gasto horas ali. Geralmente, ao entrar, minhas vias aéreas travam de imediato (rinite crônica) no que sou sempre socorrido pelo meu companheiro inseparável, o cloridrato de nafazolina.

Com o consentimentos dos ácaros, das traças e fungos vou explorando o mundo ao folhear páginas com as marcas do tempo.

Dia desses, uma amiga muito querida discorrendo comigo sobre livros, disse:

"Adoro cheiro de livro novo!"

Nunca havia atinado para o aroma citado, mas sua fala me levou a esse devaneio em forma de crônica.

Não é dos meus sentidos mais apurados, mas sei que cheiro de novo é bom...

Cheiro de carro novo...

Cheiro de casa nova

Cheiro de Roupa Nova...

Cheiro de bebê...

Cheiro de café moído na hora...

Cheiro de Dama da Noite se abrindo...

Cheiro de amor novo...

e agora...cheiro de livro...

O novo é cheiroso. Fato.

Mas, o que há em letras espalhadas aleatoriamente sobre folhas de papel ou páginas virtuais?

Nada mais que isso mesmo,  letras...

Porém, nas mãos de um hábil escritor, seja poeta ou cronista, ou mesmo de um pobre pregador que devaneia, elas se convertem em sentido...

E sentido me remete a olfato... cheiro...

Cheiro me faz lembrar que estou vivo, e que preciso escrever minha história de forma a chegar com um aroma suave às narinas do Altíssimo,  doador da vida.

Da próxima vez que eu pegar um livro numa estante vou cheira-lo...

Quando ler algo de alguém que se deu ao trabalho de organizar letras, procurarei ver mais que letras...procurarei adentrar nas sua intenções, abstrair seus sentidos e comungar com ele, não por concordar, mas por me identificar com um igual que sente e que cheira.

Todos somos cartas que precisam ser lidas...Que nos permitamos, pois,  não só ser lidos, mas cheirados, descobertos, revelados à quem de nós precisa...

Marcello di Paola

domingo, 22 de janeiro de 2012

PAZ e nada mais...

"E o Deus da Paz seja com todos vós. Amém." (Epístola de S.Paulo, Apóstolo aos Romanos)

Hoje eu quero falar de paz...



A paz que é tão  exaltada, mas tão pouco sentida...A paz que faz a gente gostar de estar vivo, que nos planta no rosto um sorriso desavisado que contagia quem quer que nos mire...

A paz do teu colo e dos teus olhos...
A paz do teu silêncio e dos teus gracejos.

A paz que quero falar é a daquele instante mágico que se perpetua nos sentidos...a paz do gesto bondoso, da palavra apropriada na hora certa,... da esperança que, vencida pelo tédio, renova-se no beijo roubado do amor negligente.

Hoje eu quero escrever sobre a paz...

A paz que você procura ao me ler, talvez até sem saber...
A paz que encontra nas letras do poeta a cumplicidade do sentir, ou nos devaneios do pregador,  sua realidade existencial.
A paz que põe fim à tormenta de um litígio prolongado...
A paz que encerra a guerra...nos campos...e na alma.
A paz que te faz dormir em colchão de nuvens com a serenata dos anjos.

 Hoje eu quero cantar sobre a paz....

A paz que é mais que um estado...a paz que é um reino...
A paz que vc nunca viu, nem ouviu falar e nem subiu a imaginação de alguém...
Falo da Paz que Deus reservou para os que herdarão suas promessas.
Para os que olham para a cruz e vêem mais que um crucificado, vêem um Príncipe...

...O Príncipe da Paz.

Sim, porque a paz sobre a qual até aqui discorri é humana...são fragmentos de paz, ainda que tantas vezes sublime. É a graça divina nos preparando para uma Paz maior e eterna.

Ahhh, obrigado Deus, obrigado por colocar pessoas em minha vida sempre com um punhado de paz em suas mãos...

Pessoas do meu convívio diário e pessoas que nunca vi, mas que sei que existem, e como sei...

Elas visitam o pregador, comentam seus devaneios... ou não...mas estão sempre com ele.

Sobre elas eu rogo tua PAZ...


Hoje eu quero devanear sobre a paz...

...em PAZ.


Marcello di Paola























sábado, 21 de janeiro de 2012

Desejo

Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero! (Jó 6:8)





Desejo...

Aquilo que se quer para além do querer, aquilo que efetivamente nos move em meio a crueza desconcertante da ausência de novidades...

O desejo nos faz sentir a pulsação da alma que se nega a morrer, que sabe, que acredita que a vida é feita de possibilidades e escolhas....de surpresas diárias...de encontros que sucedem desencontros.

Desejo não é vontade porque vontade não chega tão longe. Mas desejo não conhece limites...nem altura, nem largura e nem profundidade.

O desejo se expande...

Sempre crescente...

Nada o detém...

Se renova e se recria no círculo infinito da paixão.

Se falta esses elementos não é desejo é vontade...vontade desvanece..desejo permanece.

Desejo não se concretiza  na sua realização, mas nela se refaz.

Evidentemente me refiro a bons desejos, desejos que edificam, desejos que enobrecem o ser.

Desejo que aprisiona a razão não é desejo, é vontade que camufla a loucura.

A vontade dos loucos tem a ver com conseguir a qualquer custo, mas o desejo dos nobres tem a ver com respeito ao tempo e,  acima de tudo, ao tempo daquEle que rege o tempo.

O desejo é divino, pois somente o autor da vida poderia dotar dele suas criaturas vacilantes...

O desejo a que me refiro é...

O desejo que tem a mãe diante do filho na incubadora...

É o desejo ansioso do lactente...

É o desejo pelo filho que viajou...

É o desejo pela volta do amado do campo de batalha...

É o desejo que faz arder a cama em núpcias...

É o desejo que move o lavrador no campo...

É o desejo de liberdade da presa subjugada por seu predador...

É o desejo que sente o desprovido de pão...

É o desejo que levou ao desencanto do Édem...

É o desejo que moveu Deus a se fazer homem...

Desejo...desejo...

...desejo é o que arde dentro de mim.


Marcello di Paola



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Uma dor sublime

O Amor é forte como a morte...(Cantares de Salomão 8:6)



Uma dor sublime? Ouvi esta frase uma única vez na vida, provinda de uma mãe enlutada que havia ficado viúva a exatos um ano. Ela chamou a dor que sentia diante do corpo sem vida de seu filho de "dor sublime"...

Como fiel dedicada ao Cristo que ama, ela sabe que seu filho, assim como seu esposo, apenas adormeceram...

Somente tamanha convicção pode domesticar a dor latente de perdas irreparáveis.

Quando se perde um pai ou mãe, fala-se em orfandade...quando se perde um cônjuge, fala-se em viuvez, mas quando se perde um filho, o que falar? O que dizer?

Alguns como Dona Dinorá podem falar em "dor sublime"...a dor que dói como espada encravada no mais profundo do ser, porém,  subjugada pela esperança do reencontro...

Não existe força poderosa como a morte. Ela chega sorrateira e democraticamente reclama sua vítimas

Por isso ela causa terror e espanto e é posta à margem pela reflexão humana.

São Paulo, Apóstolo a chama de o último inimigo a ser vencido pelos cristãos..."Tragada foi a morte na vitória", diz ele, sob inspiração divina.

Mas se a morte é forte, forte também é o amor. Nas palavras do rei poeta "O amor é forte como a morte".


Assim como não se escapa da morte quando ela chega decidida, não escapa do amor o pobre coração desavisado que se deixa encantar, que vê o objeto do seu amor distante e separado de si pela cortina da impossibilidade.

Pobre coração... o dos apaixonados, que em toadas e canções, prosas e poesias, versos e rimas enaltecem a nobreza de seus sentimentos provenientes de almas sangradas pela inocência.

Amor e luto, sentimentos antagônicos, um desejado e outro rejeitado, mas que comungam do mesmo poder de causar a dor que fere.

Ambos são inevitáveis no curso de uma vida pelo que o pregador aconselha:

Ame...ame...ame...para que quando a morte vier você possa lhe dizer:

Estou pronto, porque se sofri por amor, amei de verdade...e os que partem desse mundo amando de verdade, cumpriram o propósito de sua existência.

Que Jesus, o Rei da vida, seja o meu e o teu consolo assim como foi da Dona Dinorá, quando no instante mais implacável da vida, pode suavizar a dor da perda chamando-a de sublime.

Marcello di Paola

Apologia à ilusão...

"Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento para o reter..." (Eclesiastes 8:8)




Nossa vida está sempre aquém de nossa expectativa...por isso fabricamos ilusões.

Que seria de nós não fossem elas,  as ilusões?  Não fossem imagens que desconhecendo as fronteiras da razão, permitem-se desenhar à partir de uma linha do pensamento que devaneia...

Mas muitos optam pelo tédio, o tédio de uma existência medíocre em nome de uma razão insana que nada produz além de queixumes.

A vida é mais que isso. A vida é realidade onde a ilusão umedeci o ar que se respira. Ou seja, vida sem ilusão é seca como deserto castigado.

A ilusão não é incentivada pelos amantes da religião, cujo sentido da vida só se concretiza no sofrimento atroz, nem pelos intelectuais aninhados em mansões de ácaros, cujo sentido da vida só se realiza na vaidade...Mal sabem eles que também são vítimas de suas ilusões, pois vaidade é ilusão, bem como a espera passiva por um futuro glorioso.

O ser humano se complica ao longo de sua jornada pela vida, pois percebe que hoje já não é o mesmo de ontem e teme que amanhã não seja o mesmo que hoje. Os conflitos internos se intensificam...

Só nos curaremos disso quando perdermos o medo de sentir...

de viver...

de arriscar...

de olhar em volta sem temer vaias ou precisar de aplausos...

...quando pararmos de representar para os outros e construirmos nossos próprios personagens, pois o enredo  de uma vida se desenvolve em muitos cenários.

Quando entendermos de uma vez por todas que vida é dom de Deus... e dom é presente, e presente tem que alegrar o coração.

O problema é que sobrevivemos na maior parte do tempo...

Quem sabe as ilusões não sejam, ao contrário do que se pensou até aqui, o meio propiciado pelo Criador para nos fazer sentir vivos em meio ao caos existencial, até que  parte delas se concretizem, ou não...

Marcello di Paola

domingo, 15 de janeiro de 2012

Em algum lugar do Oeste...era uma vez.



"Por que estás abatida ó minha alma"? (Salmo 42:11)

Senhor eu quero viver...

Quero viver a vida como é possível vivê-la...liberto dos grilhões das incertezas, dos medos e das reprovações alheias, da sensação de dever não cumprido...

Quero vivê-la liberto das trincheiras das proibições onde intento me proteger dos anseios do meu coração.

Há em mim uma sede, uma sede incontida, uma sensação de que há mais vida disponível em algum lugar do Oeste...

Quero tocar os céus sem deixar de pisar na terra.

Áhh se eu pudesse me fazer entender...se eu pudesse atingir teu coração para que o meu coração ventilasse...

Se eu pudesse encontrar o que me falta para além das declarações triunfalistas de um evangelho que se divorciou da empatia...

Voar, como queria voar cruzando oceanos e montanhas para encontrar abrigo em teu braços para além das nuvens e adormecer diante de teu sorriso compreensivo.

Não sou o que aprendi que o Senhor espera de mim, mas como tu mesmo disseste: Sou o que sou...

Se pareço ingrato, sou isso mesmo, ingrato, pois quantas vezes corrigistes meu percurso...

Há amor dentro de mim, há paixão, há tempestades e conflitos, mas há também a certeza de que não estou só nessa angústia existencial...

Quantas coisas vivemos juntos ao longo destes quarenta anos que me tens dado...

Já me vi herói e já me vi bandido, mas é chegada a hora de  me ver como tu me vês...

Em meio a tantos dizeres, tantos conceitos, tantas verdades propagadas, concede-me a real experiência contigo...aquela que acalenta a alma e com um dedo molhado me refresque a língua.

Entre eu Ti, há um mundo, há uma história, que hora me significa muito, hora não significa nada, mas mesmo com um coração combalido, olho pra tua cruz e de alguma forma me vejo ali...

Ali morri contigo...estou certo disso....

Mas, Senhor, eu quero viver...

Marcello di Paola
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